A vida às vezes nos apresenta a sua ironia de formas estranhas.
Em dezembro de 2025, a Vibbra completou 10 anos. E foi exatamente nesse mesmo mês que eu tomei uma das decisões mais difíceis da minha trajetória como empreendedor: matar essa empresa. Vou explicar o porquê.
Se você não me conhece, meu nome é Leandro Oliveira, sou CEO e cofundador da Vibbra.
A Vibbra nasceu em dezembro de 2015 com alguns propósitos muito claros.
1 – Levar para o mercado de tecnologia brasileiro um modelo de contratação inovador, o Talent as a Service.
2 – Mostrar que era possível construir uma empresa com cultura sólida tendo o trabalho remoto como base.
3 – Criar um lugar de trabalho que oferecesse para as pessoas algo que eu mesmo não encontrei nas empresas por onde passei.
Durante esses 10 anos, vivemos todas as grandes ondas do mercado de tecnologia. E uma dor que sempre esteve presente era a dificuldade das empresas em acessar mão de obra tech de qualidade. A Vibbra sempre foi muito boa em resolver essa dor.
Só que, principalmente ao longo de 2024 e 2025, algo começou a mudar de forma estrutural. A inteligência artificial deixou de ser promessa, hype ou curiosidade técnica. Ela passou a alterar, de forma profunda, a base do desenvolvimento de software. E isso exige uma mudança que não é pontual, nem cosmética. É transversal.
Quem viveu o mercado lembra bem do boom entre 2020 e 2021. Pandemia, digitalização acelerada, escassez absurda de profissionais de tecnologia. Empresas desesperadas por desenvolvedores. Edtechs surgindo aos montes para formar gente rápido.
Depois vieram 2022 e 2023. O GPT entrou em cena, os layoffs começaram a acontecer, muitos profissionais voltaram ao mercado. Aquela escassez extrema começou a se equilibrar. Mas o impacto mais forte veio quando a IA passou a ser realmente utilizada como ferramenta de produção de código, e não apenas como apoio.
A partir daí, duas coisas ficaram claras para nós:
- Primeiro: a disponibilidade de talentos aumentou.
- Segundo: a IA começou a equalizar uma demanda que, até pouco tempo atrás, parecia infinita.
Hoje, na média, já não é tão difícil contratar desenvolvedores quanto foi. E, mais importante, a IA passou a resolver uma parte relevante do trabalho de desenvolvimento de software que antes dependia exclusivamente de humanos.
Desde 2024, começamos a experimentar isso dentro da Vibbra. Erramos bastante, como todo mundo. Começamos usando IA de forma superficial, promptando, gerando código ruim, refinando, voltando. Depois fomos para abordagens como vibe coding. Mas nada disso resolvia bem o problema mais comum do mercado, que é o código legado, sistemas complexos, contexto de negócio real.
Foi quando começamos a olhar para agentes de IA autônomos e, mais importante, a repensar o processo de desenvolvimento de software como um todo. Não mais times 100% humanos usando IA como ferramenta. Mas equipes híbridas, onde humanos e agentes de IA fazem parte do mesmo fluxo, do início ao fim.
Quando estruturamos esse modelo de orquestração, de rituais, de workflow, de responsabilidade clara entre humanos e IA, o jogo mudou. Foi aí que chegamos ao conceito de Squads Cognitivos: equipes que combinam talento humano e inteligência artificial de forma organizada, prática e mensurável, potencializando o humano onde ele é insubstituível e usando IA onde ela é simplesmente melhor, mais rápida e mais consistente.
Testamos esse modelo em projetos pequenos, grandes, em inovação, em código legado e ficou claro pra nós que essa transformação não tem volta. O modelo tradicional de alocação de desenvolvedores está desacelerando e, do jeito que o conhecemos hoje, tende a se tornar irrelevante.
Isso não significa o fim do desenvolvedor. Significa a transformação do seu papel.
O profissional que apenas codifica perde espaço. Ganha relevância quem entende negócio, contexto, regras, integrações, arquitetura e tomada de decisão. Senioridade continua sendo fundamental. Mas as habilidades exigidas mudaram.
Diante de tudo isso, ficou impossível ignorar uma verdade dura:
A Vibbra que criamos 10 anos atrás não faz mais sentido para o futuro que estamos entrando.
A Vibbra de marketplace, de intermediação, de alocação pura, morre em 2025 para que uma nova Vibbra possa nascer em 2026.
Uma Vibbra muito mais alinhada com o que o mercado realmente precisa agora: uma consultoria estratégica de tecnologia, capaz de ajudar empresas a atravessar essa transição, do modelo tradicional de desenvolvimento de software, para o modelo cognitivo. De forma rápida, segura e competitiva. Com entregas que de fato geram ROI na operação. Não apenas entregas de código sem impacto.
A IA não é uma ferramenta opcional. Ela passou a ser parte intrínseca do desenvolvimento de software. Quem fizer esse movimento antes, ganha vantagem. Quem deixar para depois, vai pagar mais caro e perder espaço.
Esse não é um movimento isolado nosso. É global. A diferença está em quem decide agir.
Essa carta não é sobre nostalgia. É sobre responsabilidade. Encerrar um ciclo não apaga a história construída. Mas insistir em um modelo que já não responde ao futuro seria desrespeitar tudo o que aprendemos até aqui.
2026 marca o início de uma nova Vibbra. Mais madura, mais estratégica e mais conectada com o que realmente move a tecnologia hoje.
Seguimos em frente!