Nos últimos meses, sentei em dezenas de reuniões com CTOs e líderes de engenharia. Conversas comerciais, na maioria. Empresas tentando entender como acelerar a entrega de software com IA sem perder a mão. E, em quase todas, em algum momento, a conversa sai do roadmap e do orçamento e vai para um lugar mais honesto. Dessas conversas, saiu uma percepção nova.
O discurso público sobre IA é de empolgação. O privado é de insegurança e até desânimo. Nenhum líder de tecnologia que eu conheço tem medo de “ser substituído por IA”. O medo real é a sensação de estar dirigindo um carro cada vez mais rápido, com o volante respondendo cada vez menos. E também um certo desânimo com a área de tecnologia. Aqueles pontos que antes davam o tesão de trabalhar com tech começam a sair de cena. E o que sobra? Às vezes, o que sobra não instiga mais.
Vou destrinchar onde, na prática, esses medos estão aparecendo.
1. O chão se move rápido demais para planejar
Nas últimas semanas, o caso da Lovable circulou bastante. Fabian Hedin, CTO e cofundador da empresa, disse de forma explícita que abandonou o conceito de roadmap. Não é exagero retórico. Na Lovable, decisões técnicas e de produto são revistas em escalas de 15 horas, não de meses. Eles já jogaram fora meses de engenharia, um sistema inteiro de orquestração de agentes construído na época do GPT-3.5, porque o mundo mudou debaixo deles.
A frase que ficou:
“Aderência rígida a um plano é o caminho mais rápido para a obsolescência.”
Para muitos CTOs, isso é aterrorizante. Não porque seja errado, mas porque o board ainda cobra roadmap anual. O orçamento ainda é aprovado uma vez por ano, e o contrato com o cliente ainda tem escopo fechado. Nesse cenário, o líder de tecnologia está preso no meio: a tecnologia pede adaptação contínua, e a estrutura ao redor dele ainda pede previsibilidade. Esse é o primeiro medo. Não é da IA. É de não conseguir replanejar a empresa na velocidade que a IA exige.
2. Velocidade sem controle não é progresso. É risco.
Ainda na Lovable, mas agora do outro lado da moeda. Em abril, a empresa passou por um incidente de segurança que expôs, por 48 dias, código-fonte, credenciais de banco e histórico de projetos de milhares de usuários. Uma falha de autorização básica, reportada meses antes e fechada sem escalar. Eu não trago esse caso para apontar o dedo, e sim porque ele materializa o segundo grande medo que escuto:
“A IA me faz entregar mais rápido. Mas eu entendo cada vez menos o que está sendo entregue.”
É o medo da caixa-preta. O código que aparece pronto, que funciona na demo, que ninguém revisou de verdade e que ninguém sabe explicar quando quebra. Gerar código rápido virou commodity. Copilot, Cursor, qualquer IA generativa faz isso hoje. O que virou escasso é outra coisa: controle, rastreabilidade, saber por que aquela decisão técnica foi tomada e conseguir responder por ela depois.
Quando a régua de qualidade não acompanha a régua de velocidade, você não acelerou a entrega. Você só adiou o problema e aumentou o tamanho dele. IA sem mudança no processo não vira aceleração, mas sim acelerador de caos. A maioria das empresas está tentando encaixar IA dentro de um processo que continua intacto, e é por isso que o ganho está sendo marginal.
A maior parte das empresas colocou IA no desenvolvedor, e pouquíssimas colocaram IA no fluxo. O resultado que eu vejo se repetir em conversas com líderes e clientes é: a IA entra como acelerador local, mas o processo continua sendo o gargalo global. Você escreve código mais rápido e continua esperando validação. Gera testes mais rápido e continua preso na etapa anterior. Automatiza partes, e o fluxo continua sequencial. Ou seja, o gargalo não desapareceu: ele só mudou de lugar.
Se você já adotou IA, mas sua entrega continua lenta, é porque o processo não mudou. E aqui mora um medo mais político do que técnico. O CTO foi até o board, defendeu o investimento em IA e prometeu transformação. Seis meses depois, o que ele tem para mostrar é: “o time está um pouco mais produtivo”. Isso não sustenta uma narrativa, e ele sabe disso.
3. “O que eu faço com o meu time?”
Esse talvez seja o medo mais silencioso de todos, pois mexe com gente. O papel do desenvolvedor mudou. O profissional que só codifica perde espaço, e ganha relevância quem entende negócio, contexto, arquitetura, integração e decisão. Mas saber disso não responde à pergunta que tira o sono do líder:
- Como eu levo o meu time atual para esse novo lugar, sem quebrar a operação e sem perder as pessoas certas?
Não existe resposta pronta. Mas existe uma resposta errada, que é fingir que a pergunta não existe. E não só essa. Temos também estas outras:
- E o que eu faço com aquelas pessoas que amam programar? Que amam pensar arquitetura? Que amam o lado criativo do desenvolvimento de software e não querem deixar isso de lado?
Da mesma forma que eu preciso preparar um colaborador para ser líder de um time, não vejo empresas preparando desenvolvedores para serem líderes de agentes. Ou você acha que “ser orquestrador de agentes” não exige habilidades de liderança?
O fato de eu liderar um agente não tira de mim a responsabilidade de:
- Entender o todo e estar focado no resultado, não na microgestão do agente;
- Ajudar o agente a melhorar com feedbacks;
- Remover impedimentos para que o trabalho do agente flua melhor;
- Entender se o agente precisa de reforço, seja de ferramenta, de acesso ou de contexto.
Exigir habilidades de liderança de quem não foi preparado para isso só vai gerar frustração, para você e para a pessoa que está sendo cobrada por isso.
O que esses três medos têm em comum?
Reparou? Nenhum deles é sobre a IA em si. Todos são sobre o que está em volta dela, seja processo, estrutura, governança, pessoas etc. A IA não é o problema, e sim uma força nova entrando em um sistema que foi desenhado para outra realidade: uma realidade onde a execução era 100% humana, o tempo era escasso e a coordenação dependia de reunião e documento.
Quando o executor muda, o sistema precisa mudar junto. Continuar usando IA como ferramenta dentro do processo antigo é o que produz o ganho marginal e toda a insegurança que vem junto. A próxima vantagem competitiva não vai ser gerar código mais rápido (isso já é commodity), e sim entregar software mais rápido, com controle.
Vi isso de perto em uma empresa tradicional, madura, com engenharia complexa e legado pesado, exatamente o tipo de ambiente onde a promessa de “IA mágica” costuma falhar. O que acelerou a entrega ali não foi a ferramenta, e sim o redesenho do processo em volta dela. Porque é isso que devolve ao líder a única coisa que ele realmente sente que perdeu: o controle.
Não o controle de microgerenciar cada linha, mas o controle de entender o que está sendo construído, conseguir responder por isso e adaptar o rumo sem jogar a empresa no caos. Velocidade com controle: esses dois fatores juntos, e não um no lugar do outro.
Conclusão
Se você lidera tecnologia hoje e sente algum desses medos, eu só tenho uma coisa a dizer:
É o medo certo.
Quem não está sentindo nada provavelmente ainda não olhou de perto o suficiente. O movimento não tem volta, disso eu já tenho convicção. Mas a forma como cada empresa atravessa essa transição ainda está em aberto. E essa parte depende de decisão, não de tecnologia. Tenho conversado com vários líderes sobre exatamente isso: como sair do ganho pontual e chegar a uma mudança estrutural, sem perder o controle no caminho.
Se esse é o seu momento, converse com a Vibbra.
Quem decide antes atravessa com vantagem. Quem espera atravessa pagando mais caro.