Saiu esta semana o episódio do Vibbracast com o meu amigo Alexsandro Ribeiro, executivo de tecnologia com mais de 22 anos liderando transformação digital em grandes grupos de varejo de moda, lifestyle e fast food, com forte atuação em reestruturação, eficiência operacional, dados, cloud e cibersegurança.
O Alexsandro é, hoje, um dos executivos brasileiros com a leitura mais limpa de como as decisões sobre IA estão chegando, sendo discutidas e sendo executadas no nível mais alto das companhias. O ângulo dessa conversa foi diferente das outras edições. Aqui, a gente sentou para falar não de como a IA muda a engenharia de software, mas de como ela está chegando ao board e o que esse board está cobrando das suas áreas.
Pressão de investidor, pressão de diretoria, pressão de resultado. E o que separa os boards que estão atravessando bem dos que estão criando estrago organizacional na largada.
A conversa rendeu, e trago aqui cinco pontos que valem a discussão.
1. Existem dois mundos no mercado, e o board já entendeu isso
A primeira coisa que o Alexsandro articulou bem foi a separação clara que ele vem observando. De um lado, empresas perenes, com dados organizados, governança estruturada e Data Lake anonimizado dentro da LGPD. Essas conseguem experimentar IA com segurança e tirar resultado real.
Do outro lado, empresas que ainda têm o dado bagunçado e querem entrar de cabeça na onda. Essas estão entregando à IA exatamente o material que vai se voltar contra elas.
Nas palavras do Alexsandro:
“Se você entrar com lixo, vai sair lixo. A IA pode até apontar isso, mas você vai precisar fazer uma sanitização antes de poder acreditar no que o modelo está te entregando.”
Essa segmentação é o primeiro filtro que o board deveria estar fazendo internamente, e que pouquíssimos estão. Antes de qualquer projeto: qual é a maturidade real do dado que vai alimentar essa IA? Sem essa pergunta respondida, todo o resto é teatro.
2. O que o board quer é eficiência operacional. E não tem nada de errado nisso
Quando perguntei o que mais pega o board quando o tema IA entra na pauta, o Alexsandro foi direto:
“O mundo está caro desde a pandemia. Quando o board olha, ele tem que entregar EBITDA, gerar caixa. A pergunta é onde isso aqui vai impactar resultado, onde vai gerar caixa na operação.”
E aí ele citou as áreas onde IA já está provando ROI dentro das estruturas que ele acompanha.
Call center e SAC, com agentes substituindo atendimento humano de baixo valor. RH, no apoio à triagem, gestão e onboarding. Jurídico, com aceleração expressiva em revisão de contratos e modelos.
A leitura honesta é de que o board não vai virar AI-first porque isso é bonito de dizer em podcast. Ele vai porque o número fecha. E, quando o número não fecha, ele recua. Executivo de tecnologia que quer ser ouvido lá em cima hoje precisa saber traduzir IA em linguagem de EBITDA, não em jargão de engenharia.
3. Letramento executivo virou o gargalo, e algumas empresas estão sendo radicais com isso
O ponto que mais ficou comigo, e sobre o qual conversamos por um bom tempo. Por muito tempo, transformação digital foi puxada pela TI. Agora, não dá mais. Todo executivo, de toda área, precisa entender IA o suficiente para liderar a transformação dentro da sua frente. Isso virou tema sensível dentro das empresas. Contei na gravação um caso que tinha escutado de um CTO dias antes.
Uma empresa de porte médio fez um exercício recente. Pediu que todos os executivos e diretores produzissem, em Lovable ou ferramenta similar, uma solução simples que resolvesse uma dor real do dia a dia da sua área. Não era para virar produto. Era para virar prova de letramento. Três diretores não conseguiram apresentar nada coerente. e foram desligados.
É radical. E é o tipo de movimento que está começando a aparecer com frequência em empresas brasileiras. O Alex respondeu com a colocação que define o momento:
“Para um cargo executivo hoje, não ter essa familiaridade, não ter esse interesse, ou não buscar isso, é realmente se colocar nessa situação.”
A informação subentendida é dura: a régua subiu, e quem não entendeu ainda já está descendo.
4. “Governança sem agilidade também é burocracia”
A frase é do Alex e fechou o episódio. Resume o paradoxo que está paralisando boa parte das empresas grandes brasileiras hoje: muita governança, pouca agilidade. Ou o oposto: corre solto sem controle e, quando vaza o primeiro dado, é caos.
A síntese dele, que vale colar na parede:
“O sucesso mora no equilíbrio dessa tensão. Tem empresa travando isso para fazer comitê de ética para fazer piloto, enquanto tem empresa redesenhando setor inteiro, redesenhando unidade fabril, redesenhando modelo de negócio com IA. A IA não vai esperar o consenso do comitê de ética definir.”
Esse parágrafo, em uma respiração, é o estado do mercado brasileiro hoje.
E é exatamente o ponto onde a Vibbra entra com mais frequência. Não para discutir se vai usar IA. Para destravar como rodar com governança em velocidade compatível com a movimentação do mercado.
5. O analista júnior com IA senta na cadeira do sênior
Esse insight do Alex muda a economia de talento, e ainda não vi muita gente articulando com a clareza com que ele articulou:
“Um analista júnior hoje, com IA, senta numa cadeira sênior, numa cadeira plena. E aí o sênior você puxa para uma cadeira de especialista, para avaliar, dar input, criticar.”
Esse rearranjo reorganiza pirâmides inteiras de carreira. Mexe com cargo, com salário, com plano de sucessão, com cultura, com tudo. E poucas áreas de RH no Brasil estão preparadas para essa conversa.
A pergunta que fica: como o seu time vai estar estruturado em dezoito meses?
Se você não tem essa resposta hoje, alguém no seu mercado está construindo a dele agora.
Bônus: a fala que fechou o papo
Para encerrar, perguntei ao Alex que tipo de reflexão ele acredita que ainda falta acontecer no nível executivo brasileiro frente a esse momento.
A resposta dele é uma das colocações mais maduras que ouvi sobre o tema neste ano. É uma reflexão sobre redefinição de propósito do valor humano dentro de uma empresa que vai automatizar parte expressiva do seu trabalho rotineiro, sobre o tipo de liderança que esse momento exige, e sobre o cuidado com o lado humano da transição, que poucos boards estão olhando.
Não vou parafrasear aqui. A fala é melhor escutada do que lida, e está nos minutos finais do episódio.
Onde ouvir o episódio completo
Episódio completo no YouTube e no Spotify. Links abaixo.
🎧 YouTube: https://youtu.be/DOEiYDSEAww
🎧 Spotify: https://open.spotify.com/episode/422OiVnZ2GOTRcl8vgLKz3?si=e1O9CORiTgirRfYu5xh6Nw
São cerca de 45 minutos. Vale cada um deles, especialmente se você é executivo de tecnologia, se reporta a um board, ou está, neste exato momento, tendo que traduzir IA para um board que cobra resultado para ontem.
O Alex é um dos executivos mais maduros e diretos com quem conversei sobre esse tema. Sem rodeio, sem buzzword e com leitura precisa do que está acontecendo no nível executivo brasileiro.
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