95% dos projetos de IA estão falhando. E não é culpa da tecnologia. Conversei com Joás Andrade, CEO da Inovatec, no Vibbracast

Arte do episódio 08 do Vibbracast com Joás Andrade, CEO da Inovatec Tecnologia, sobre por que 95% dos projetos de IA estão falhando.

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Recentemente saiu o episódio do Vibbracast com o Joás Andrade, CEO da Inova Tech Serviços em Tecnologia, com mais de duas décadas conectando tecnologia, negócio e governança em uma trajetória rara. Acompanha de perto o tema da IA, está atualmente fazendo um mestrado em gestão estratégica, em Valência, na Espanha, e mantém contato ativo com executivos dos mercados americano, europeu e latino-americano.

Traduzindo: quando o Joás fala sobre como a IA chega ao board, ele fala com a visão de dentro. Não de fora.

O ângulo desse episódio foi específico e sensível, abordando questões como:

  • Quando a IA entra na mesa de decisão e a discussão vira investimento, por que a conta não fecha?

  • Por que projetos tecnicamente bons são reprovados no comitê financeiro?

  • E o que separa os boards que estão avançando daqueles que estão emperrando na própria planilha?

Bastidores da gravação do Vibbracast, com Leandro Oliveira, da Vibbra, no estúdio e Joás Andrade participando remotamente pela tela.

Foi um dos episódios mais densos que gravamos. Cinco pontos que vale a pena trazer.

IA entrou no board. E não está mais saindo.

A primeira colocação do Joás foi esta: talvez a pergunta certa não seja mais “como a IA entra no board”, mas “por que ela não sai mais”. Com isso, ele mapeou dois pilares que empurraram esse tema para a mesa de decisão de forma irreversível, sendo eles:

  1. A pressão competitiva: o CEO senta para tomar café, lê que o concorrente lançou um projeto novo com IA e, na semana seguinte, chega à reunião perguntando: “Por que nós não estamos fazendo algo parecido?”. O tema deixou de ser experimental e virou sobrevivência.
  2. A busca por eficiência operacional: Fazer mais com menos no mundo caro pós-pandemia. Toda operação está buscando onde reduzir sem comprometer a entrega, e a IA aparece como candidata natural.

A colocação dele que ficou:

“Até 2025, a gente estava testando a onda. Estava num caminho meio de piloto, testando algumas tecnologias. Mas o tema agora é estratégico. Ele entra na mesa de decisão por sobrevivência.”

E, quando ele entra, em poucos minutos a pergunta chega: “quanto isso vai custar e quanto vamos ver de retorno?”, e é aí que a conversa trava.

Leandro Oliveira, da Vibbra, durante a gravação do Vibbracast, com Joás Andrade participando remotamente por uma tela no estúdio.

Onde a decisão emperra: expectativa versus métrica

Esse foi o ponto mais denso do papo, onde Joás foi cirúrgico dizendo que a trava não é devido a tecnologia, e sim o desalinhamento entre a expectativa do executivo e a métrica pela qual ele está tentando avaliar a IA.

O executivo tenta medir a IA com a mesma régua com que mede um projeto de TI tradicional, isso é

  • Payback rápido;

  • Redução direta de custo fixo;

  • Aumento de receita já no próximo ano fiscal.

Só que a IA entrega valor distribuído, de forma indireta e com prazo de médio a longo. E boa parte do valor está na inovação de produto, na experiência do cliente e na resiliência operacional, coisas que a planilha tradicional não captura.

O Joás trouxe três dados que fundamentam esse ponto e que vale a pena colar na parede:

MIT, em um estudo de 2025: 95% dos pilotos de IA nas empresas estão falhando. E o motivo, na análise deles, não é a falta de tecnologia. É o learning gap. As organizações não redesenham o workflow em torno da IA, não capacitam as pessoas para capturar o valor e, por isso, o impacto financeiro fica invisível na linha do P&L.

Forbes, em uma pesquisa com mais de 1.075 executivos responsáveis por decisões: 39% citam a medição de ROI como o principal desafio em iniciativas de IA. E menos de 1% desse grupo relata um ROI significativo, acima de 20% de lucratividade ou economia. A grande maioria vê um ganho limitado, entre 1% e 5%, no primeiro ano.

TOTVS, no Panorama Brasil 2025: somente 20% dos executivos brasileiros consideram a IA altamente estratégica. Outros 42% relatam baixo alinhamento com os objetivos de negócio.

Traduzindo os três dados juntos: o problema é a lente pela qual o board está olhando para a IA, e não a IA em si.

Bastidores da gravação do Vibbracast, com câmeras posicionadas diante da tela enquanto Joás Andrade participa remotamente do episódio.

O caso que fechou a discussão para mim

O Joás contou um caso na gravação que resume o problema inteiro em uma história, o qual vale trazê-lo quase completo aqui, porque é o tipo de caso que qualquer executivo brasileiro pode reconhecer.

O Joás atuava como conselheiro numa indústria de médio porte. Lá o time técnico desenvolveu um piloto de IA preditiva para a manutenção de equipamentos críticos, entregando:

  • Precisão de 82% na antecipação de falhas.

  • Projeção de redução de downtime de cerca de 28% em paradas não planejadas.

  • Governança de dados sólida, com time engajado e solução tecnicamente robusta.

O projeto vai para o comitê de investimentos e é reprovado, e o motivo: o principal benefício era evitar um custo futuro. Na planilha tradicional, isso aparece como “benefício projetado”, não como “economia certa e imediata”. O board queria ver uma redução clara de custo fixo e um aumento direto de receita no próximo ano fiscal. Não foi possível provar isso dentro dessa métrica, e por isso o projeto foi arquivado.

Um mês depois, a empresa teve duas paradas não planejadas, exatamente nos equipamentos que o modelo teria identificado como críticos. O custo dessas duas paradas ficou bem acima do investimento que o projeto teria exigido.

O Joás disse, com uma ironia contida: “a área financeira até brincou que aquela decisão não tinha sido acertada ao longo do tempo.”

Traduzindo sem eufemismo: o board reprovou um projeto de IA porque não conseguiu enxergar o valor sob a lente antiga, e o custo real disso apareceu na quebra seguinte de uma máquina. Isso é o padrão, não é exceção.

Ele trouxe outros dois casos na mesma linha: um em análise de crédito, com detecção de fraude no setor financeiro, e outro em precificação dinâmica no varejo. Mesma dinâmica: o ganho aparece como “menor perda” ou “margem incremental”, não como “lucro imediato”, e o comitê recua.

A frase que já anotei para usar em muita conversa

Em uma das colocações do Joás, saiu esta frase, que resume o dilema todo: “a IA não vai substituir pessoas. Vai substituir pessoas que não estão preparadas para trabalhar com IA.”

E ele estendeu o raciocínio para o nível executivo, que é o ponto que mais importa aqui. O board que continuar olhando para a IA com a lente da infraestrutura de dez anos atrás vai perder para o board que aprendeu a enxergá-la como uma transformação de negócio.

O papel do CTO, na análise dele, também mudou. Antes, era o líder técnico que respondia ao comitê com uma solução operacional. Hoje, precisa ser o braço direito do conselho na tomada de decisões estratégicas. Fala a linguagem do negócio, não a do stack.

Se o seu CTO ainda entra em uma reunião de board com um slide técnico, o problema não é a IA.

Leandro Oliveira, da Vibbra, durante a gravação do Vibbracast no estúdio, com Joás Andrade participando remotamente pela tela.

O que precisa mudar na régua do CFO

No fechamento, perguntei ao Joás em que linha da planilha o executivo de tecnologia deveria posicionar um projeto de IA para ter mais chances de aprovação. CAPEX, OPEX, algum novo formato?

A resposta foi mais afiada do que a pergunta, dizendo que não se trata de ajustar a planilha e sim de mudar a mentalidade.

Ele listou o que precisa ser revisto como critério de decisão, sendo:

  • Sair do payback de 7 a 18 meses como exigência obrigatória: muitos projetos de IA têm retorno em 24 ou 36 meses e continuam sendo os melhores investimentos possíveis.

  • Sair do foco exclusivo na redução de headcount ou de custo fixo: redução de risco, ganho de resiliência, aceleração da inovação e melhoria da experiência do cliente também são retornos. Só que precisam ser modelados.

  • Parar de exigir que 100% do benefício seja quantificado e atribuído no primeiro ano: isso mata pilotos que teriam dado sustentação estratégica no longo prazo.

  • Adotar uma visão de portfólio estratégico: categorizar projetos, aceitar diferentes prazos de maturação e modelar por camada de risco.

  • Fortalecer a governança, a cultura e a capacitação antes da planilha: sem capacidade de captura de valor dentro da organização, o melhor projeto de IA falha na execução.

E fechou com uma linha que uso agora: “a grande dificuldade de justificar o investimento em IA não está na ausência de valor. Está na forma como ainda tentamos medir esse valor com modelos tradicionais.”

Câmera registrando Leandro Oliveira durante a gravação do Vibbracast, com Joás Andrade participando remotamente pela tela ao fundo.

Bônus: a analogia da lente

Para fechar o episódio, o Joás usou uma imagem que ficou comigo por dias. Ele comparou a lente pela qual o board avalia a IA com os óculos que a gente usa. Com o tempo, a lente muda. O grau aumenta. E a pessoa que se recusa a atualizar a lente continua vendo o mundo com a nitidez de dez anos atrás.

O board que continua olhando para a IA como TI de suporte está usando uma lente antiga. E o custo disso, como ele explicou com o caso da Kodak, aparece anos depois, quando não dá mais para corrigir.

O trecho está nos minutos finais do episódio. Vale escutar o próprio Joás. É uma das melhores metáforas que já ouvi para explicar este momento.

Onde ouvir o episódio completo

Episódio completo no YouTube e no Spotify. Links abaixo.

🎧 Spotify: https://open.spotify.com/episode/67OzzmnPDhSJdlEftPVSMW

🎧 YouTube: https://youtu.be/b3cTV42VCI8

São cerca de 50 minutos. Vale cada minuto, especialmente se você é CTO, CIO, CEO, conselheiro ou está lidando agora com a tarefa de defender um orçamento de IA dentro do seu comitê de investimentos.

O Joás é generoso ao compartilhar não só o diagnóstico, mas também o caminho de saída. Ele fala com uma autoridade rara, porque viveu essas mesas e continua vivendo essa realidade em três continentes diferentes.

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