Na última terça-feira, dia 26/05/2025 às 8h da manhã, rodamos a primeira edição do CTO Breakfast by Vibbra, em Florianópolis. Numa sala fechada reunimos convidados selecionados a dedo, onde o ego e o palco ficaram de fora da sala. Nenhum slide de venda e nenhum papo de “a IA vai mudar tudo”.

A regra era simples: tirar a IA do hype e discutir o que está acontecendo na prática. Não lá nos Estados Unidos, não na China, mas em Santa Catarina, por quem está liderando tecnologia no estado.
Sentaram à mesa lideranças executivas de tecnologia da Dígitro Tecnologia, Senior Sistemas, Softplan, Intelbras, Portobello Grupo, WK, SoftExpert, Zucchetti Brasil, Teltec Solutions, Pulsati, Paradigma Business Solutions, Audaces, Way2 Technology, Hi Platform, Seventh, Governança Brasil e Vibbra.

Faço questão de listar, porque foi essa composição que deu o tom. Software puro, indústria de base tecnológica, plataformas SaaS, produto, serviço. Todas com engenharia madura. Todas com dor real. Todas com pressão de board.
A conversa foi mais profunda do que eu esperava. As trocas foram sinceras e francas, e o networking fluiu naturalmente. Uma coisa ficou clara: um espaço como esse não é só importante, é necessário.
Vou trazer neste artigo os principais ensinamentos do primeiro Breakfast by Vibbra.
A frase que abriu e que voltou a aparecer a manhã inteira
Coloquei o seguinte na abertura, e isso virou eixo da discussão:
A empresa até gera código mais rápido. Mas continua lenta para entregar software.
Não é provocação, e sim diagnóstico. Todas as empresas representadas naquela sala já passaram da fase do “será que vale usar IA?”. Todas têm Copilot, ou Cursor, ou GPTs avulsos rodando com algum nível de experimentação. Mas, na hora de mostrar o ganho para o board, o que aparece é “o time está um pouco mais produtivo”. Indicador de transformação, ainda longe do que se espera.
O motivo é estrutural, e foi o que destrinchamos na primeira hora:
“… um processo de desenvolvimento de software desenhado para um mundo 100% humano não sobrevive à era da IA.”
Você acelera o código com IA, mas o code review continua humano e em fila. Acelera teste, mas o QA continua humano e em fila. Automatiza um pedaço, e o fluxo continua sequencial. Ou seja, não é sobre acelerar partes, e sim sobre repensar o todo. E aí fica nítido: IA sem mudança no processo não vira aceleração, vira acelerador de caos. Foi essa frase que ressoou.
Os números que paramos para discutir
Apresentei o benchmark dos clientes que estão rodando o modelo de Squads Cognitivos, ou seja, esteira redesenhada com humanos e agentes operando lado a lado, governança clara, aprendizado contínuo embutido, papéis da equipe redesenhados e cultura de engenharia de software atualizada para a era da IA:
- 85% de redução no ciclo completo de desenvolvimento, do discovery à produção.
- 70% de redução no custo por feature.
- 50% de redução de headcount, se a empresa quiser.
- Ou 5x mais capacidade de entrega no mesmo time.
Esses números não são marketing, e sim indicadores de operação. E foi exatamente por isso que a sala começou a fazer perguntas duras.
O case Dígitro: o que prendeu a sala
O Everton Bernardes começou citando o case da Dígitro e, depois, o Agenor Pacheco Junior, CTO da Dígitro, seguiu. Resumo o ponto que pegou todo mundo no início.
Uma funcionalidade que historicamente levava 5 dias na Dígitro foi entregue em 1 hora e 30 minutos. Dos 90 minutos, 40 foram a apresentação do PO ao time, discutindo se aquilo era, de fato, o que o cliente precisava. O resto foi a esteira rodando, do documento até a release.
A sala olhou para duas coisas:
Primeira: isso não foi feito do dia para a noite. Foi resultado de 5 meses de calibragem. Cada commit da Dígitro virou, também, um commit para os agentes. A base neural foi se especializando no contexto, no padrão e no histórico daquela engenharia. Por isso a curva é exponencial, não linear.
Segunda: a Dígitro não é uma empresa “leve”. É uma corporação tradicional, com legado robusto, exigência alta de governança e a complexidade típica de quem opera no segmento há décadas. Exatamente o tipo de empresa onde a maior parte do mercado supõe que “IA não funciona”. Ela funciona sim, quando o processo é redesenhado em volta dela.

O momento mais quente da manhã
A discussão pegou fogo em um lugar que eu sabia que ia aparecer: plataformas fechadas.
Um dos CTOs trouxe a dor que muita empresa grande carrega: Oracle EBS, Salesforce, SAP, ABAP, camadas proprietárias onde o agente não chega, a customização não passa, e o ganho da IA fica preso na borda do produto.
“Consigo agente no front. Consigo agente no QA. No core do produto, não consigo.”
Esse foi o ponto, e a sala inteira reconheceu.
Outro CTO emendou com uma observação que tinha circulado em um evento setorial dias antes: empresas grandes já anunciando, sem rodeio, planos de sair de SAP e Salesforce nos próximos dois anos. Os fornecedores estão se fechando ainda mais com a migração para cloud, justamente quando o cliente começa a precisar do oposto.
A frase que ficou na sala:
“Ou esses fornecedores mudam, ou vão ser substituídos.”
Não é hipérbole de palco. Foi um CTO de uma das maiores empresas de software de Santa Catarina falando para uma mesa de pares. Sem holofote. Sem agenda de venda. Soltando o que está vendo na operação dele.
Trago essa parte aqui sem conclusão fechada, porque ela não tem conclusão. Tem sinal. E o sinal é claro: o jogo de plataforma enterprise vai mudar nos próximos dois, três anos. Quem depende inteiramente de um fornecedor fechado precisa começar a desenhar arquitetura de saída agora. Não depois.
“Eu não quero virar babá de agente”
Outro tema rendeu uma discussão longa, e foi sobre o que acontece com o desenvolvedor.
Eu trouxe uma frase real, que ouvi na comunidade CTO Real, dita por líderes sobre seus desenvolvedores:
“Eu não quero virar babá de agente.”
Essa resistência tem base. O dev sênior, especialmente, é quem mais sente a mudança de papel. Ele não vai parar de codar porque não sabe. Ele vai parar de codar porque vai estar fazendo outra coisa: orquestrando agentes, validando contexto, definindo guardrails, dando feedback estruturado que entra na base neural do time.
Decisões críticas, escolha de arquitetura, garantia final de qualidade e segurança continuam dele. O que muda é onde o tempo dele é gasto.
Esse novo papel é uma liderança de uma cognição não humana. Então, fiz uma provocação que deixei no ar:
“Quem está formando desenvolvedor para liderar agente?”
Resposta honesta: ninguém. Esse gap é cultural, é agora, e é responsabilidade da liderança de tecnologia atravessar.

A métrica de ilusão que pegou todo mundo de surpresa
Um terceiro insight que vale destacar. O Everton compartilhou um caso recente. Entramos em uma consultoria e, na primeira reunião, abrimos o board do time de engenharia.
120 pull requests abertos.
A leitura óbvia seria “falta capacidade de review”. Não era. Era falta de coragem de aprovar.
A empresa tinha distribuído IA para todo mundo. O volume de PR explodiu. O review humano continuou igual. E o time começou a sentar em cima de PRs antigos, alguns de 2023, sem clareza se ainda faziam sentido para o produto.
Conclusão prática, que deixou a sala pensativa: PR e commit viraram métricas de ilusão. Mais PR não é mais entrega. Software em produção gerando mais receita é entrega.
Quem ainda mede produtividade de engenharia por commit está medindo, na verdade, a aceleração local de um gargalo que se moveu para o próximo passo do fluxo.
O que ninguém escreve em post de LinkedIn
A parte mais valiosa da manhã, para mim, não foi a tese nem o case. Foi quando a conversa abaixou o tom e os CTOs começaram a expor o que normalmente não aparece em post de LinkedIn.
Medos reais. Anotei alguns, sem atribuição, porque o valor desse formato é justamente esse:
- Perder governança no meio da aceleração;
- Crescer débito técnico sem perceber;
- Deixar o time aprender errado e perder padrão;
- Virar refém de um fornecedor que se fechou;
- Investir pesado em IA e voltar para o board com ganho marginal para mostrar;
- Não saber justificar ROI quando o presidente perguntar de novo no próximo trimestre.
Esses não são medos de quem não entende IA. São medos de quem entende exatamente o que está em jogo e está sob pressão de fazer essa transição funcionar.
O mercado finalmente saiu da fase do hype. A pergunta dos CTOs não é mais “como eu uso IA”. Virou outra:
- Como eu transformo IA em capacidade organizacional real?
Essa pergunta é muito mais difícil. E é exatamente onde a Vibbra está hoje, ajudando empresas a atravessar essa transição.
O que vem aí
O retorno depois do evento foi mais forte do que eu esperava. O networking se estendeu, naturalmente, muito além do horário. Empresas trocando contato direto, comparando situação, marcando conversa.
Ficou claro para nós que existe uma demanda real por esse tipo de espaço. Sala fechada, executivos de verdade, conversa franca sem palco e sem pitch.
O CTO Breakfast vai virar série.
A próxima edição em Florianópolis já está em desenho. A partir do segundo semestre, vamos rodar o formato em outras cidades de Santa Catarina e em outros polos de tecnologia do Brasil. A prioridade serão mercados com base de engenharia madura, onde a conversa rende.
O número de cadeiras vai continuar pequeno, por design. É o que faz o formato funcionar.
Aqui, deixo o meu obrigado pela presença e por aceitarem o meu convite direcionado a todos aqui listados: Agenor Pacheco Junior, Charlie Anacleto Poletti Amadeu, Luis Fernando Fausto, Denilson Nogueira, Frederico Loureiro Perillo, Fabio Godoy, Daniel Mathias, Rafael Carmisin Duarte, Nelson Campaner, Fernando Camargo, Fernando Engelmann, Leonardo Tristão, Saulo Reschke Parizotto, Ricardo Ramos Queiroz, Ana Carolina Custodio, ND, MSc, MBA, VBHC Yellow Belt, Bernardo Rachadel, Murilo Schulz Roberto Timóteo da Silva, Rodrigo Werlang, LUIZ ALBERTO GALAFASSI.

E um agradecimento a essas lideranças Vibbra que fizeram esse encontro acontecer: Everton Bernardes, Juliana Nascimento, Fernanda Barcelos e Pâmela Cuti Oliveira.
Se você lidera tecnologia, tem engenharia estruturada na sua empresa e quer estar na próxima mesa, comenta aqui ou me chama no inbox. Te coloco na fila.
A IA mudou o jogo. Quem decide antes atravessa com vantagem. Quem espera atravessa pagando mais caro.